Herman Renato Assumpção, Iran Freitas e Israel Raimundo dos Santos (Sassa Tupinambá)
Este trabalho foi produzido no âmbito das pesquisas da Athena Consultoria.
O trabalho que apresentamos no V Narrativas Interculturais, Decoloniais e Antirracistas em Educação, selecionado para compor a programação do congresso realizado em dezembro de 2026 na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, parte de uma constatação que qualquer professor da Educação Básica reconhece sem dificuldade: a lei existe, o material que chega à sala de aula, na maior parte das vezes, ainda não a cumpre.
Mais de duas décadas após as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena, a distância entre o texto normativo e o currículo real permanece significativa. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva define a Educação para as Relações Étnico-Raciais como reeducação das relações, e não como acréscimo de conteúdos. Essa distinção desloca o problema: se a ERER exige uma reorganização do conhecimento escolar, a pergunta relevante passa a ser se a escola dispõe das bases materiais para realizá-la.
A MATRIZ ANALÍTICA
Para examinar essa distância, o artigo propõe uma matriz de quatro operações da colonialidade curricular, cada uma identificável no currículo real, entendido como o conjunto de materiais, sequências, imagens, plataformas, avaliações e critérios de correção que chegam todos os dias à sala de aula.
A operação do tempo investiga como os povos negros, indígenas e quilombolas são temporalizados no currículo: se comparecem como sujeitos do presente e do futuro, com territórios, línguas e projetos em disputa, ou se ficam confinados ao passado, à data comemorativa e à representação genérica.
A operação da autoria examina quem é reconhecido como produtor legítimo de conhecimento, e não apenas quem é retratado. A presença de um grupo como tema de estudo não equivale ao reconhecimento de seus intelectuais, escritores e pensadores como fontes do saber escolar.
A operação do sagrado analisa como o currículo trata as cosmologias afro-brasileiras e indígenas: se como formas legítimas de conhecimento sobre o mundo, ou como expressões culturais toleradas numa estrutura que naturaliza o calendário e a simbologia cristãos enquanto silencia orixás, encantados, pajés e rezadores. O que se convencionou chamar de laicidade escolar costuma ser, na prática, uma laicidade seletiva.
A operação da epistemologia atravessa as três anteriores e aprofunda o problema. Ela não pergunta apenas quem aparece ou quem escreve, mas quais formas de produzir e validar conhecimento a escola reconhece como legítimas. Os saberes negros e indígenas entram no currículo, em geral, como tema a ilustrar, raramente como fundamento que organiza a pergunta, a fonte e o critério do que conta como conhecimento. Valdelice Veron, em sua dissertação sobre o modo de viver da mulher Kaiowá, evidencia que território, memória e ancestralidade são formas de produção de conhecimento, e não ornamento cultural. Pelo ângulo negro, o conceito de epistemicídio, formulado por Sueli Carneiro, nomeia o processo pelo qual o aparato escolar desqualifica os modos negros de pensar antes mesmo de avaliá-los. Filosofias indígenas, oralidade, corpo, terreiro e ancestralidade constituem sistemas de conhecimento em funcionamento, tratados pelo currículo convencional como se pertencessem a outro tempo.
O ARGUMENTO CENTRAL
O artigo sustenta que o problema estrutural revelado por essas quatro operações não pode ser resolvido pela formação docente isolada. A narrativa colonial chega à escola de modo sistêmico, impressa, distribuída, avaliada e legitimada por programas, editais e calendários. A correção dessa narrativa recai, com frequência, sobre o professor individualmente, que adapta textos, substitui imagens, busca autores ausentes, enfrenta acusações de doutrinação e negocia resistências institucionais. A assimetria é de escala: o dano é produzido industrialmente, o reparo é exigido de forma artesanal. Quando a política pública não transforma o material de base, a formação docente opera, na prática, como uma delegação impossível.
O material didático ocupa, nessa leitura, uma posição estratégica. É nele que as quatro operações se tornam concretas, e é sobre ele que qualquer política de ERER precisa incidir para ir além da retórica normativa. Nilma Lino Gomes lembra que o movimento negro se constituiu como sujeito educador, produtor de saberes nas lutas por emancipação, e esse reconhecimento precisa se traduzir em critérios de autoria, e não apenas em critérios de representação, nos programas que definem o que vai para a sala de aula. A Educação Escolar Indígena concentra o problema em sua forma mais aguda: onde a legislação mais explicitamente exige material próprio, diferenciado, intercultural e bilíngue, mais visível é a sua ausência, e a escola diferenciada corre o risco permanente de ser recapturada pelo currículo convencional.
OS AUTORES
Herman Renato Assumpção é pedagogo e mestre em Projetos Educacionais, com mais de 25 anos de experiência em formação docente, gestão escolar e governança de redes de ensino, com ênfase em Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Iran Freitas é mestre em Educação pela UFPE, fundadora da Athena Consultoria e liderança negra da educação antirracista, com atuação na formação de educadores e na implementação das políticas de relações étnico-raciais na Educação Básica.
Israel Raimundo dos Santos, Sassa Tupinambá, é Pajé do povo Tupinambá, pesquisador do Núcleo Opará/CLAEDS/FLACSO, terapeuta naturopata com fundamentação nas racionalidades médicas dos povos indígenas, escritor e ativista. Coordena a Articulação dos Povos Indígenas de São Paulo (CAPISP) e atua no GT Indígena do Tribunal Popular.
A composição da autoria é parte constitutiva do argumento: um trabalho sobre o reconhecimento de negros e indígenas como produtores legítimos de conhecimento só ganha coerência quando esses sujeitos participam da sua própria produção.
O artigo completo será submetido a periódico científico. A apresentação no V Narrativas ocorre em dezembro de 2026, na Faculdade de Educação da UnB, em Brasília.
É uma grande satisfação construir este trabalho com Iran Freitas e Sassa Tupinambá, no âmbito das pesquisas da Athena, e conquistar espaço para apresentá-lo em um congresso tão importante quanto o V Narrativas Interculturais, Decoloniais e Antirracistas em Educação, na UnB. Minha gratidão aos dois pela parceria e pela partilha de conhecimentos e experiências que deram vida a essa produção conjunta.
A discussão permanece necessária. Mesmo com os avanços das políticas educacionais, da PNEERQ, em 2024, a marcos posteriores voltados à educação indígena, como a PNEEI-TEE, em 2025, ainda estamos distantes de assegurar às culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas a devida centralidade nos materiais didáticos que chegam às escolas públicas brasileiras. Essa distância é sobretudo epistemológica: diz respeito a quem reconhecemos como produtor de conhecimento e a quais saberes atribuímos legitimidade para fundamentar o que se ensina.
Nossa produção nasce desse compromisso: contribuir para que essas autorias, cosmologias e formas de conhecer participem efetivamente da organização do currículo. Poder levar essa reflexão ao congresso, em uma autoria construída entre nós três, torna essa conquista especialmente significativa.
Uma costura de saberes e aquilombamento de pressupostos que fortalecem os efeitos da prática que queremos para efetivar, para dentro e para fora da escola, uma postura de letramento antirracista . Muito importante esse trabalho que estamos fazendo nesta estrutura pedagógica, mesmo sabendo das distâncias entre o caminho e a chegada. Parabéns a todos os envolvidos . Resistir sempre.
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